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Por em 24 de maio de 2016

Para ler ouvindo:

 

Sabia exatamente o gosto daquele amargo que sentiria novamente nessa data.

Sentado naquela cafeteria de esquina, tomava sempre o mesmo café com canela, repetia esse ritual há algum tempo como na esperança de brotar uma ideia. Lembrou-se das vezes que frequentaram aquele ambiente para recordar o primeiro encontro. Tinha sido um desastre; derramaram café quente na blusa branca. Mas, era uma lembrança que  aproximava ao mesmo tempo todo o amor que queimava e toda saudade que existia no universo.

Era ai que morava o perigo da saudade mista com uma navalha afiada de culpas e palavras malditas.

Lembrou-se das vezes que se dirigiram até o píer para jogar pedrinhas na maré alta e ver as estrelas. Guardava seu fascínio pela lua; como na vez que tentou fazer uma fotografia da lua cheia, mas só conseguiu captar um clarão embaçado no céu. Mesmo assim, ganhou um sorriso enorme de agradecimento. A foto fora o papel de parede daquele celular que nunca mais conheceu seu número nas chamadas recentes.

Um gole de café era tão difícil nesse dia 25.

Sempre sentava à mesma mesa. No mesmo horário, entre a saída do trabalho e o programa de televisão preferido. Sentia o frescor da canela na boca e lembrava-se daquele rosto esperto explicando seu fascínio bobo por especiarias e a proveniência de cada uma. Seus lábios eram gostosos como quando o beijava após provar algo novo. Seus lábios tinham sabor de bom dia e coloriam meu acordar até nas manhãs do triste outono como esse de agora.

Sua falta era dilacerante, e mesmo depois de anos e de ter aprendido a conviver com isso, não havia se desprendido da boba esperança de reencontrar sentido – ou aquele sorriso – nas pequenas coisas que eram sagradas para ambos.

E quando a data do primeiro café se repetia, vinha e pegava seu café favorito, no mesmo horário idiota e na mesma mesa escondida ao fundo do salão. No restante do ano, nem arriscava passar em frente à cafeteria. Como quem tem um despertador interno, ao fim do café seu estomago normalmente embrulharia, olharia para o relógio e se levantaria da mesa. Levaria 13 minutos para chegar ao seu lar, dai ligaria a televisão e assistiria àquele programa bobo sobre leões na savana africana que não cansava de se repetir.

Olharia pela janela do apartamento e veria a rua vazia à meia luz e se perderia entre alguns livros e projetos de trabalho para o dia seguinte. Morria um pouco a cada dia entre novos braços e beijos, noites mal dormidas e arrependimentos azedos. Era cruel essa constatação de que já havia vivido o melhor e só se deu conta quando perdeu. Era humano e até hoje sobrevivia serpenteando as boas lembranças que ao mesmo tempo o tragavam de saudade.

Mas, naquele dia seu relógio de pulso parou de funcionar.

Precisou levantar-se para procurar na cafeteria um relógio de parede. Perdeu dois minutos no trajeto. Pegou a mochila surrada, fones de ouvido a postos e, ao se dirigir à saída, deparou-se com o destino final do seu labirinto. Naquele instante, tomou conta da lembrança da boca que lhe beijava em desculpas pelo atraso. Embora que bobo, mas sabia da importância que dava a cumprir horários.

Meio que extasiado e incrédulo, viu seu clarão favorito ficar frente a frente.

O corpo estava em queda livre ainda que em pé e firmemente apoiado. Olhos fixos nos olhos como chamas no braseiro. Estava impecável em sua desarrumada maneira de ter charme.

A incerteza era cruel, mas não tão forte quando a curiosidade pronta para morrer. O medo era de longe o pior frio na barriga que já havia sentido, e mesmo depois de anos procurando paz entre vestígios do que haviam se tornado, não estava preparado para o que mais queria.

O reencontro era uma trégua alicerçada num relógio 2 minutos atrasado.

Tomou-lhe o pulso e conferiu com o relógio de parede.

O primeiro marcava 17h45min.

O segundo apontava ser 17h47min.

E de repente a esperança outrora longínqua brotou como flor em seu peito. Ele estava ali e começou falando antes mesmo que o outro recobrasse o fôlego.

– Ah, te conheço de um lugar. – falou com um sorrisinho no canto da boca.

– De onde?

– Da falta que me faz. – abriu o sorriso.

 

Imagem: Tumblr

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